Observatório · Relatório temático

Produção agrícola.
O que o mundo cultiva e troca.

O que o mundo cultiva e cria, onde o faz, quanta terra usa e como os alimentos circulam entre países. Com um capítulo dedicado a Portugal: o que produz, o que exporta e de que depende.

Dados oficiais da FAO: produção e terra até 2024, comércio até 2024.

Sumário

Dez coisas que os dados mostram

    1 · Produção

    O que o mundo produz

    Em volume, a agricultura mundial assenta em poucas culturas. Cana-de-açúcar, milho, arroz e trigo somam mais de 4,7 mil milhões de toneladas por ano. A cana lidera porque é pesada e aquosa: a tonelagem mede massa colhida, não valor nutritivo nem económico.

    Desde 1961 tudo cresceu, mas a ritmos muito diferentes. As oleaginosas (soja, palma, colza, girassol, em equivalente de óleo) multiplicaram-se quase por dez, puxadas pela procura de óleo alimentar, ração animal e biocombustíveis. A carne e os hortícolas cresceram cinco a seis vezes. Os cereais, base da dieta, cresceram 3,6 vezes. Raízes e leguminosas ficaram para trás.

    Os 20 produtos agrícolas com mais toneladas produzidasMundo, , milhões de toneladas (Mt). Produtos individuais, sem agregados.
    Fonte: FAOSTAT, Production: Crops and livestock products (QCL)
    Crescimento da produção mundial por grupo, 1961 = 100Índice: cada grupo dividido pelo seu valor de 1961. Passe o cursor para ver toneladas.
    Fonte: FAOSTAT QCL, agregados mundiais (Cereals primary, Meat total, Milk total, Vegetables primary, Fruit primary, Oilcrops oil equivalent)
    2 · Produtividade

    Mais comida com quase a mesma terra

    Entre 1961 e , a colheita mundial de cereais passou de 877 para 3133 milhões de toneladas. A área colhida cresceu apenas 15%. Quase todo o aumento veio do rendimento por hectare, que triplicou: de 1,35 para 4,21 toneladas.

    Esse salto tem nome: variedades melhoradas, fertilizantes de síntese, rega, mecanização e pesticidas, a chamada Revolução Verde. Poupou florestas que de outra forma teriam sido convertidas em campos. Teve também custos ambientais, como a poluição por nitratos, a perda de solo e a dependência de energia fóssil, que as páginas de Solo e Água tratam em detalhe.

    Cereais no mundo: produção, área colhida e rendimento, 1961 = 100Todos os cereais primários (milho, trigo, arroz, cevada, sorgo e outros).
    Fonte: FAOSTAT QCL, item Cereals primary (1717), elementos Production e Area harvested. Rendimento = produção / área.
    3 · Geografia

    Onde se produz: o centro de gravidade mudou para a Ásia

    Em 1961 a Europa produzia 30% dos cereais e 42% da carne do mundo. Hoje produz 15% e 17%. A Ásia passou a produzir metade dos cereais e 44% da carne, num movimento que acompanha o crescimento da população e do rendimento na China, Índia e Sudeste Asiático. A quota das Américas manteve-se estável, mas assente em exportação. África duplicou a produção relativa de cereais, de 5% para 7%, e continua muito abaixo do seu peso demográfico.

    Quota de cada continente na produção mundialPercentagem do total dos cinco continentes, anos selecionados.
    Fonte: FAOSTAT QCL, regiões M49 (África, Américas, Ásia, Europa, Oceânia)
    4 · Concentração

    Quem domina cada produto

    Muitos produtos dependem de poucos países. Cinco países produzem 87% da soja e 91% do fruto de palma (só a Indonésia e a Malásia somam 82%). O cacau concentra-se na África Ocidental e o café no Brasil e no Vietname. Esta concentração torna os mercados vulneráveis a secas, doenças e decisões políticas num único país. A Índia, por exemplo, restringiu a exportação de arroz em 2023. Escolhe um produto para ver a distribuição e a posição de Portugal.

    Maiores produtores por produtoDez maiores países, toneladas. Portugal destacado quando figura no top 10.
    Fonte: FAOSTAT QCL. Azeite e vinho têm dados até 2023, os restantes até .
    5 · Terra

    Terra agrícola: um terço do planeta emerso

    A agricultura ocupa cerca de milhões de hectares, da área terrestre. Dois terços dessa terra são pastagens permanentes. A terra cultivada, onde estão cereais, hortícolas e pomares, é só um terço. A área agrícola total atingiu um máximo por volta do ano 2000 e tem recuado ligeiramente, sobretudo por abandono de pastagens. A terra cultivada continua a crescer, em grande parte por desflorestação nos trópicos.

    A agricultura biológica ainda é marginal: cerca de milhões de hectares, pouco mais de 2% da terra agrícola. Mais de metade está na Austrália, quase toda em pastagens extensivas certificadas.

    Uso agrícola da terra no mundoMilhões de hectares (Mha), 1961–.
    Fonte: FAOSTAT, Land Use (RL)
    Área em agricultura biológicaMil hectares, , maiores países e Portugal.
    Fonte: FAOSTAT RL, item Agriculture area under organic agric. (6671)
    6 · Comércio

    Comércio mundial: perto de 1,8 biliões de euros por ano

    As exportações mundiais de produtos agrícolas e pecuários valeram mil milhões de euros em , cerca de 8% de todo o comércio de mercadorias. O valor quadruplicou desde 2000. Os valores são nominais e sobem também com a inflação, os preços das matérias-primas e o câmbio, como mostra o salto de 2021–2022.

    Os maiores exportadores não são os países com saldo mais positivo. Os Estados Unidos exportam mais do que ninguém mas importam ainda mais. Os Países Baixos são o 3.º exportador porque Roterdão reexporta para toda a Europa. O Brasil é, de longe, o país com maior excedente agrícola. A China é o maior défice do mundo: importa soja, carne e fruta para alimentar 1,4 mil milhões de pessoas.

    Exportações agrícolas mundiais, 1971–Mil milhões de euros correntes (nominais, sem correção de inflação). 1971–1998 em ECU, a unidade que antecedeu o euro.
    Fonte: FAOSTAT, Trade: Crops and livestock products (TCL), item Crops and livestock products (1882), Export value
    Maiores exportadores e importadoresMil milhões de euros, .
    Fonte: FAOSTAT TCL. Países individuais (UE desagregada).
    Saldo agrícola: maiores excedentes e déficesExportações menos importações, mil milhões de euros, .
    ExcedenteDéfice
    Fonte: FAOSTAT TCL
    Os 20 produtos agrícolas mais exportados, em valorMil milhões de euros, mundo, .
    Fonte: FAOSTAT TCL, itens individuais. Inclui produtos transformados (queijo, bebidas, tabaco) contabilizados pela FAO como agrícolas.
    7 · Rotas

    Quem vende a quem: as rotas das grandes matérias-primas

    O comércio de matérias-primas é ainda mais concentrado do que a produção. Brasil e Estados Unidos fazem 85% das exportações de soja, e uma única rota, Brasil→China, movimenta cerca de 29 mil milhões de euros por ano. No trigo, Rússia, Canadá, Estados Unidos e Ucrânia dominam, e o Egito é o maior comprador mundial. Por isso a guerra na Ucrânia, em 2022, se fez sentir nos preços do pão no Norte de África e no Médio Oriente.

    Maiores exportadores e importadores por matéria-primaMilhões de toneladas, .

    Exportadores

    Importadores

    Fonte: FAOSTAT TCL, quantidades (Export/Import quantity, t). Arroz em equivalente de arroz branqueado.
    As maiores rotas bilateraisExportações declaradas pelo país de origem, milhões de euros, .
    Fonte: FAOSTAT, Detailed Trade Matrix (TM). No cacau, Países Baixos e Bélgica surgem como origem porque reexportam e transformam grão importado.
    8 · Potências

    O que produzem, exportam e importam as potências agrícolas

    Cada potência tem um perfil próprio. O Brasil e a Argentina são plataformas de exportação de soja, milho, açúcar e carne. Os Estados Unidos exportam grão e importam bebidas, fruta e café. A China produz em escala enorme e ainda assim depende da soja importada para alimentar o maior efetivo suíno do mundo. A UE exporta produtos transformados de alto valor (queijo, vinho, bebidas) e importa café, cacau e oleaginosas. Ucrânia e Rússia vendem cereais e óleo de girassol.

    Perfil agrícola por paísProdução em Mt (); exportações e importações em mil milhões de euros (). Produtos individuais.
    Fonte: FAOSTAT QCL e TCL. UE (27): o comércio inclui as trocas entre Estados-membros.
    9 · Portugal

    Portugal: excedente em azeite, vinho e tomate; dependente em cereais e soja

    Portugal tem uma balança agrícola estruturalmente deficitária. Em exportou mil milhões de euros em produtos agrícolas e importou mil milhões. As exportações cobrem cerca de três quartos das importações. Em 2000 cobriam pouco mais de um terço: as exportações cresceram quase sete vezes, mais depressa do que as importações.

    A especialização é nítida. O país tem excedente em óleos e gorduras (sobretudo azeite) e bebidas alcoólicas (vinho), e tem um comércio quase equilibrado em fruta e hortícolas. Os grandes défices estão na carne, nos cereais, nas oleaginosas (soja para ração) e nos alimentos para animais. A pecuária nacional depende, assim, de grão importado.

    Comércio agrícola de Portugal, 1971–Milhões de euros correntes (1971–1998 em ECU).
    Fonte: FAOSTAT TCL, item 1882
    Saldo por grupo de produtosExportações menos importações, milhões de euros, .
    Fonte: FAOSTAT TCL, agregados FAO. «Outros alimentos» inclui açúcar, café, cacau, preparações e tabaco.
    Grau de autoaprovisionamentoProdução ÷ (produção + importações − exportações), em volume, média . Acima de 100% o país produz mais do que consome.
    Fonte: cálculo bioculture sobre FAOSTAT QCL e TCL (mesmo código de produto). Não considera variação de stocks nem conteúdo em produtos transformados. Azeite e vinho: 2022–2023.

    O trigo é o caso extremo: Portugal produz cerca de 4% do que consome. Em 1961 colhia mais de 400 mil toneladas, hoje cerca de 80 mil. A terra cultivada caiu de 3,0 para 1,7 milhões de hectares no mesmo período. Em sentido inverso, a produção de azeite multiplicou-se por quase sete desde 2000, com a expansão do olival em regadio no Alentejo, e Portugal é já o 3.º exportador mundial de azeite em volume. O tomate, sobretudo para indústria, põe o país no 15.º lugar mundial.

    Evolução da produção em PortugalMilhares de toneladas.
    Fonte: FAOSTAT QCL
    Principais parceiros comerciais% do valor do comércio agrícola de Portugal, .
    Fonte: FAOSTAT Detailed Trade Matrix, declarações de Portugal
    10 · Verificação

    As afirmações habituais, confrontadas com os dados

    O ponto de partida deste relatório foi um resumo genérico sobre as potências agrícolas. Confrontámo-lo com os dados da FAO. A maioria confirma-se. Algumas afirmações precisam de nuance e outras não podem ser verificadas com estatísticas agrícolas.

    11 · Fontes e método

    Fontes, definições e limitações

    FAOSTAT · Produção (QCL)

    Produção, área colhida e efetivos de mais de 200 produtos, 1961–2024. Base dos capítulos 1 a 4 e 9. Atualizado em 31/12/2025.

    fao.org/faostat/en/#data/QCL

    FAOSTAT · Comércio (TCL e TM)

    Exportações e importações por país e produto, em valor (convertido para euros) e quantidade. A matriz detalhada (TM) dá os pares origem-destino. TCL atualizado em 24/07/2026.

    fao.org/faostat/en/#data/TCL · #data/TM

    FAOSTAT · Uso do solo (RL)

    Terra agrícola, cultivada, pastagens, floresta, rega e agricultura biológica. Atualizado em 02/10/2026.

    fao.org/faostat/en/#data/RL

    Para aprofundar

    OEC (oec.world) para visualizar rotas por produto em nomenclatura HS. USDA PSD Online (apps.fas.usda.gov/psdonline) para stocks, consumo e previsões da campanha corrente. Eurostat para o comércio extra-UE. INE (ine.pt) para as Contas Económicas da Agricultura e a balança agroalimentar nacional, com dados mais recentes do que a FAO.

    oec.world · apps.fas.usda.gov/psdonline · ec.europa.eu/eurostat · ine.pt
    1. Países. «China» corresponde à China continental (código FAO 41), sem Taiwan, Hong Kong e Macau, para evitar dupla contagem. A UE (27) é um agregado: o seu comércio soma as trocas entre Estados-membros, por isso o total da UE não é comparável com o de um país. Nos rankings de países a UE aparece desagregada.
    2. Toneladas não são valor. A tonelagem favorece produtos pesados e aquosos (cana, leite, melancia). Para importância económica, usa os gráficos de comércio em euros.
    3. Euros e câmbio. A FAO publica o comércio em dólares correntes. Convertemos cada ano para euros com a taxa média desse ano (Eurostat, ert_bil_eur_a). Entre 1971 e 1998 usa-se o ECU, a unidade que antecedeu o euro, e antes de 1971 não há taxa, por isso as séries em euros começam aí. Parte das variações reflete o câmbio e não o comércio.
    4. Valores nominais. Os valores não estão corrigidos da inflação. Comparações de longo prazo exageram o crescimento real.
    5. Estimativas. A FAO preenche lacunas com estimativas e imputações (flags E, I, X). Nos países com estatística frágil, sobretudo em África, os valores do último ano são muitas vezes estimados e podem ser revistos.
    6. Reexportações. Países com grandes portos ou indústria de transformação (Países Baixos, Bélgica, Singapura) aparecem como exportadores de produtos que não produzem.
    7. Autoaprovisionamento. O rácio usa o mesmo código de produto na produção e no comércio. Não converte produtos transformados (farinha, massa, rações compostas) para equivalente de grão nem considera stocks. É, por isso, uma aproximação. O INE publica balanços de aprovisionamento oficiais para Portugal.
    8. Âmbito. As estatísticas agrícolas da FAO não incluem pescado, madeira, pasta de papel, fertilizantes nem químicos. Esses fluxos exigem as bases de comércio gerais (UN Comtrade, OEC).
    bioCulture
    bioCulture Regeneração Global